José Mourinho voltou a colocar o Benfica no centro do debate mediático. Após o Moreirense-Benfica, o treinador encarnado comentou a arbitragem e deixou uma mensagem clara: segundo ele, são os rivais que “choram, pressionam e gritam”, enquanto o Benfica manteria um perfil diferente, mais contido e institucional. A declaração caiu bem junto de muitos benfiquistas, habituados a ver no técnico um líder forte, frontal e capaz de defender o clube sem rodeios. No entanto, quando se analisam os factos friamente, o discurso parece ter ido um pouco além da realidade.
Desde o início da época 2025/2026, o Benfica tem sido o clube que mais vezes se pronunciou publicamente sobre arbitragem. Ainda antes da bola começar a rolar oficialmente, os encarnados contestaram a nomeação de Fábio Veríssimo para a Supertaça Cândido de Oliveira. Na altura, muitos adeptos consideraram legítima a posição, sobretudo tendo em conta o clima de tensão herdado da final da Taça de Portugal da época anterior.
Depois desse episódio, houve um período de relativa calma. Mas com a chegada de Mourinho à Luz, a comunicação do clube ganhou outro tom e outra frequência. De acordo com registos de declarações oficiais — treinadores, dirigentes e comunicados — o Benfica já se referiu à arbitragem por várias vezes ao longo da temporada, sempre em tom crítico. Em contraste, FC Porto e Sporting surgem muito mais discretos nesse capítulo.
É aqui que surge a contradição. Quando Mourinho afirma que os outros pressionam mais os árbitros do que o Benfica, os números não sustentam essa ideia. Mesmo admitindo alguma margem de erro na contagem, a diferença é demasiado grande para ser ignorada. O Benfica fala mais de arbitragem do que os rivais, ainda que o faça, regra geral, com linguagem cuidada e sem excessos verbais.
Isso não invalida a estratégia. Pelo contrário. Um dos traços mais marcantes da carreira de José Mourinho sempre foi a capacidade de criar um “inimigo externo”. Árbitros, imprensa ou sistema — tudo serve para unir o grupo, proteger os jogadores e mobilizar os adeptos. É uma tática conhecida, eficaz e, muitas vezes, vencedora. No Benfica, não é diferente.
O problema surge quando a narrativa entra em choque direto com os factos. Dizer que FC Porto e Sporting pressionam mais a arbitragem do que o Benfica, neste momento da época, é no mínimo um exagero. Um exagero “ligeiro”, como lhe chama o autor da opinião, mas ainda assim dispensável. Porque o Benfica não precisa de distorcer a realidade para defender os seus interesses.
Para os benfiquistas, a mensagem de Mourinho continua a ser apelativa. O treinador fala como líder, protege o balneário e passa a ideia de força contra tudo e contra todos. Esse discurso cola nos adeptos, especialmente nos mais passionais, e cria um sentimento de união interna. Mas fora desse círculo, a análise fria mostra que o Benfica tem sido, de facto, o clube mais ativo na contestação à arbitragem.
No fim, ficam duas verdades que podem coexistir: Mourinho está no seu papel e utiliza uma estratégia comunicacional que conhece como poucos; e os factos demonstram que o Benfica não é tão contido como o treinador quis fazer crer. Cabe aos adeptos decidir se preferem o impacto emocional do discurso… ou a objetividade dos números.







